Competências críticas para a infância e a juventude num ambiente digital em constante mudança

19/03/2026

Competências críticas para a infância e a juventude num ambiente digital em constante mudança

Charo Sábada

A importância da alfabetização mediática na infância e na juventude

Hoje em dia, ver vídeos, jogar online ou conversar com amizades através das redes sociais faz parte da rotina quotidiana de meninos e meninas. O ambiente digital tornou-se um espaço habitual onde se investe tempo de lazer, socialização e, por vezes, também de aprendizagem. Embora existam vozes de alerta sobre os riscos que esta realidade pode implicar, a verdade é que diversos fatores socioculturais tornam difícil pensar em alternativas generalizadas. Os estilos de vida contemporâneos limitam frequentemente atividades ou contextos como o brincar na rua ou o tempo em família, que têm vantagens inegáveis. Além disso, a evidência científica sobre o impacto do uso do digital no bem-estar da infância não é conclusiva nem unívoca.

Perante um cenário que se revela inevitável, com potenciais perigos mas também com múltiplas oportunidades, torna-se imprescindível garantir que crianças e adolescentes adquiram as competências e as ferramentas necessárias para compreender e agir de forma segura e crítica nestes ambientes.

Mais além da desinformação: uma competência para a vida

A alfabetização mediática costuma associar-se à luta contra a desinformação e à capacidade de detetar boatos ou notícias falsas. No entanto, o seu alcance é muito maior: contribui para o desenvolvimento de competências tão relevantes como argumentar com solidez, expressar-se com respeito em contextos digitais ou reconhecer a influência que determinados conteúdos exercem sobre as decisões e os comportamentos.

No âmbito do Ano da Cidadania Digital, estas competências adquirem um protagonismo especial. A alfabetização mediática consolida-se como um pilar para a formação de cidadãs e cidadãos responsáveis, críticos e participativos nos ambientes digitais. Num contexto marcado pela digitalização acelerada e pela irrupção da inteligência artificial, esta capacidade — entendida como a faculdade de aceder, analisar, avaliar e criar mensagens — torna-se cada vez mais essencial. Formar também para a participação cidadã é uma oportunidade que a tecnologia oferece e que requer uma abordagem ativa e crítica que só pode ser confiada à educação.

Embora seja necessário continuar a avançar na incorporação da alfabetização mediática no sistema educativo, não se pode negar a importância da família e de toda a sociedade na aquisição e consolidação desta competência. O trabalho de pais e mães, com o seu acompanhamento e conselho, e a responsabilidade dos atores públicos em oferecer modelos e comportamentos positivos, são imprescindíveis. Assistimos, infelizmente, a uma realidade política em que não é fácil encontrar moderação e respeito nos discursos dos representantes, algo que se reflete claramente nas redes sociais e gera visões polarizadas e radicalizadas, terreno fértil para a proliferação de discursos de ódio.

Recomendações e enquadramentos normativos

Entre as mais de 100 propostas incluídas no Relatório do Comité de Pessoas Especialistas para o desenvolvimento de um ambiente digital seguro para a juventude e a infância (2024), a medida número 7 assinalava a necessidade de “potenciar os elementos do currículo educativo que fomentam as competências para a vida, favorecem o bem-estar e a saúde de crianças e adolescentes, e dão resposta a preocupações sociais que os afetam: ambientes digitais seguros, alfabetização mediática e informacional, educação afetivo-sexual e educação para a saúde”. Embora boa parte da atenção mediática se tenha concentrado nas medidas restritivas ou proibitivas em torno da tecnologia, a inclusão da alfabetização mediática nesse relatório é fundamental. Esta medida conecta-se, além disso, com as recomendações de organismos internacionais como a Comissão Europeia, que há anos promove políticas ativas nesta matéria (Sádaba&Salaverría, 2023).

A presença da alfabetização mediática na legislação espanhola não é novidade. A Lei Orgânica 1/1996 de Proteção Jurídica do Menor, modificada em 2015, já a incorporava como ferramenta essencial para que os menores desenvolvam pensamento crítico, atuem com responsabilidade online e saibam identificar riscos tecnológicos. Mais recentemente, a Lei 13/2022, de 7 de julho, Geral da Comunicação Audiovisual, no seu artigo 10, estabelece a obrigação tanto para as administrações como para os prestadores de serviços audiovisuais de adotar medidas para promover a alfabetização mediática em todos os segmentos sociais, idades e tipos de meios. Exige igualmente a avaliação periódica dos progressos alcançados. Neste último caso, ainda não foram desenvolvidos os instrumentos que permitam o acompanhamento e o cumprimento efetivo da lei, algo necessário para poder avaliar a sua eficácia.

No caso da administração educativa, a alfabetização mediática tem estado, por vezes, limitada à condição de disciplina opcional e, na melhor das hipóteses, identificada como uma competência transversal associada à competência digital. Algumas iniciativas europeias propõem que se avalie a possibilidade de que tenha uma presença mais evidente no currículo educativo, embora a complexidade da sua implementação num sistema descentralizado, com dezassete autoridades autonómicas responsáveis, seja evidente.

Uma vacina contra a desinformação

A alfabetização mediática perfila-se assim como uma ferramenta fundamental para garantir direitos essenciais da infância: o direito a estar informada, a participar na vida pública e a fazê-lo de forma segura. Ao promover competências críticas que permitem distinguir factos de opiniões, identificar a desinformação, analisar com rigor e gerar conteúdos responsáveis, constitui aquilo que poderíamos considerar uma verdadeira vacina contra a pandemia das mentiras e dos boatos.

Poder-se-ia pensar que meninos e meninas estão a salvo desta pandemia desinformativa precisamente pelo seu aparente desinteresse pela atualidade política ou social, onde se produz grande parte da batalha de mentiras e boatos. No entanto, no conteúdo que consomem — particularmente aquele gerado por criadores de conteúdo ou influencers — é muito importante garantir que dispõem do pensamento crítico que lhes permita analisar e avaliar as mensagens que recebem. Em algumas ocasiões, sob uma camada de entretenimento, são propostos desafios ou trends que podem até pôr em perigo a integridade física de meninos e meninas (Feijoo et al., 2024). Ou conteúdos comerciais que, sob uma aparência orgânica, geram atitudes e preferências de consumo que podem não ser plenamente livres. E, naturalmente, a capacidade de avaliar a exposição a imagens ou estilos de vida que transmitem modelos normativos ou inalcançáveis e que podem gerar frustração pessoal (Vizcaíno Verdú et al., 2024).

Preparar para um futuro em constante mudança

O ecossistema digital muda a grande velocidade. Hoje o foco está nas redes sociais, mas também na inteligência artificial ou nos mundos virtuais. A alfabetização mediática não só prepara meninos e meninas para enfrentar os desafios do presente, como também os capacita para se desenvolverem em cenários futuros que ainda não podemos prever.

A chave está em compreender que a alfabetização mediática não é apenas mais uma disciplina, mas sim uma competência vital que atravessa a vida pessoal, social e cidadã. Tal como se aprende a ler e a escrever para aceder ao conhecimento, é necessário aprender a interpretar, analisar e produzir mensagens num ambiente digital saturado de informação. Só assim se garante que a infância possa ser protagonista ativa e não mera espectadora passiva da cultura digital que habita.

Além disso, investir em alfabetização mediática é investir em coesão social e em democracia. Cidadãs e cidadãos capazes de identificar enviesamentos, questionar narrativas simplistas e participar em debates de forma respeitosa e fundamentada constituem um antídoto contra a polarização e os discursos de ódio. Longe de ser um luxo educativo, a alfabetização mediática é uma necessidade urgente para sustentar sociedades mais inclusivas, participativas e justas.

Por último, não devemos esquecer que a mudança tecnológica será permanente, mas a bússola crítica que a alfabetização mediática proporciona permanece. Formar meninos e meninas e adolescentes com estas ferramentas é assegurar-lhes um futuro no qual possam mover-se com liberdade, responsabilidade e autonomia, sem ficarem presos a lógicas de manipulação ou a dinâmicas que reduzam a sua capacidade de decisão. É, em suma, garantir que possam exercer plenamente e de forma consciente a sua cidadania digital.

A cidadania digital não se limita ao acesso à tecnologia, mas implica a capacidade de participar ativamente em comunidades online, defender os próprios direitos, respeitar os dos outros e contribuir de forma construtiva para a sociedade digital. A alfabetização mediática é a base que permite que esta cidadania seja exercida com critério, responsabilidade e respeito.

Deste modo, investir em alfabetização mediática é também investir numa cidadania digital sólida: aquela que combina competências técnicas, sentido crítico e compromisso ético, e que assegura que as gerações mais jovens se tornem agentes ativos na construção de um ecossistema digital mais justo e democrático.

Referências

Feijoo, Beatriz, Sádaba, Charo and Segarra-Saavedra, Jesús. «Viral challenges as a digital entertainment phenomenon among children. Perceptions, motivations and critical skills of minors» Communications, vol. 49, no. 4, 2024, pp. 578-599. https://doi.org/10.1515/commun-2022-0044

Sádaba, Charo, & Salaverría, Ramón (2023). Combatir la desinformación con alfabetización mediática: análisis de las tendencias en la Unión Europea. Revista Latina De Comunicación Social, (81), 1–17. https://doi.org/10.4185/RLCS-2023-1552 Vizcaíno-Verdú, A., Feijoo, B., & Sádaba, C. (2025). Behind the Adolescent Filter: Unveiling the Connection Between Digital Body Image Edition, Satisfaction and Well-Being. Atlantic Journal of Communication33(4), 597–610. https://doi.org/10.1080/15456870.2025.2470737

Comité de Personas Expertas (2024), Informe del comité de personas expertas para el desarrollo de un entorno digital seguro para la juventud y la infancia, Ministerio de Juventud e Infancia. Madrid. Accesible en: https://www.juventudeinfancia.gob.es/es/comunicacion/notas-prensa/comite-expertos-juventud-e-infancia-propone-107-medidas-crear-entornos.

Charo Sábada. Durante os últimos vinte anos, a sua investigação tem-se centrado na relação entre crianças e adolescentes e as tecnologias digitais, tendo participado em diversos projetos de investigação em países da América Latina, da Europa e em Espanha. Mais recentemente, tem orientado o seu trabalho para as competências digitais e mediáticas da população mais jovem. Em 2022 foi membro do Grupo de Peritos da Comissão Europeia sobre a luta contra a desinformação e a promoção da alfabetização digital através da educação e da formação. Em 2024 integrou o Comité de Pessoas Especialistas organizado pelo Governo de Espanha que elaborou o Relatório para o desenvolvimento de um ambiente digital seguro para a juventude e a infância. Faz parte da equipa do Iberifier+, hub ibérico do European Digital Media Observatory.

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