19/02/2026
Juventude, Democracia e Verdade: A participação política e cívica na encruzilhada da tecnologia, literacia e a mobilização dos jovens
por Miguel Paisana
As primeiras conversas sobre o que viria a ser o projeto SmartVote começaram em setembro de 2024, há pouco mais de um ano. Desde cedo foi evidente a vontade (e a necessidade) de criar um consórcio que juntasse o rigor e a isenção da abordagem académica à experiência no trabalho com a sociedade civil, identificando os seus públicos mais vulneráveis, nomeadamente os mais jovens, e a forma mais eficaz de colaborar com eles para produzir um impacto que se fizesse sentir não só nesses públicos, mas na esfera pública alargada.
As discussões entre parceiros ibéricos, de Espanha e Portugal centraram-se desde logo nos desafios comuns enfrentados nos dois países: por razões diferentes, verificam-se na sociedade espanhola e portuguesa tendências de mudança claras ao nível político, que impõem desafios de nível local, regional, nacional e internacional, associados em grande parte ao facto de vivermos numa realidade política e comunicacional muito concreta. À aceleração dos ciclos noticiosos e do debate político polarizado, há debates profundos a acontecer sobre o papel da tecnologia, em geral, e da Inteligência Artificial (IA), em particular, nesses dois aspetos e sobre a preocupação e o impacto da desinformação na saúde da democracia.
Todas estas mudanças ocorrem no quadro mais amplo de mudanças profundas a nível político e comunicacional, que ocorrem em virtude das mudanças tecnológicas e culturais ao longo das últimas décadas e que impactam particularmente os jovens, contrapondo-os às gerações mais velhas. Entre os mais jovens, os primeiros processos de socialização para a política, a democracia e a vida pública ocorrem agora não por intermediação das instituições ditas tradicionais (a escola, a família, meios de comunicação social, etc.) mas via redes sociais e outras estruturas de curadoria algorítmica (Pariser, 2011).
Estas estruturas, assentes em ideologias e arquiteturas baseadas na captação da atenção, seja pela apresentação de conteúdos que confirmam a visão do utilizador, de conteúdos polarizantes, opostos à visão do utilizador, ou ambos. Estas alterações ao nível da construção do saber e da consciência política têm, também, um profundo impacto ao nível institucional, mudando as dinâmicas de poder e redefinindo por quem, como, quando e porquê a agenda mediática e a política são determinadas (Cobb & Elder, 1971; Cobb et al., 2011).
O primeiro relatório produzido no âmbito do projeto SmartVote (Paisana et al., 2025), criado como base para o trabalho do projeto explora de forma aprofundada estes aspetos, fornecendo dados concretos sobre a realidade espanhola e portuguesa e, num exercício comparativo, identificando os que as duas sociedades têm de diferente e de comum, para além da histórica familiaridade e amizade que as une.
Os dois países passaram por processos de transição democrática praticamente simultâneos na década de 70, que culminaram na elaboração de documentos constitucionais que formalizam valores semelhantes na base das suas democracias. No entanto, são observáveis inúmeras diferenças dinâmicas de funcionamento dos sistemas políticos Espanhol e Português, seja pelos níveis de descentralização das estruturas políticas espanholas face às portuguesas ou pelo simples facto de estarmos a falar de uma Monarquia Constitucional, em Espanha, e de uma República Semipresidencialista, em Portugal.
Passados cerca de 50 anos desde que a Constituição Espanhola e a Constituição Portuguesa foram redigidas, Espanha e Portugal apresentam hoje desafios semelhantes. Ainda que Espanha apresente perfis de polarização política mais acentuados do que Portugal, nos últimos anos Portugal regista também aumentos deste tipo de polarização (Coppedge et al., 2025) e em termos eleitorais identificam-se problemas semelhantes de baixa participação eleitoral entre os mais jovens, motivada por afastamento face aos políticos e partidos políticos, precariedade económica e laboral e, também, questões identitárias (Paisana et al., 2025).
Esta vulnerabilidade, em particular, tem sido aproveitada nos últimos anos por movimentos e partidos populistas, sobretudo de direita, que têm encontrado junto do eleitorado mais jovem o oxigénio necessário para sustentar a sua ascensão política. Os jovens, por sua vez, identificam-se com as narrativas destes partidos, que aparentam responder diretamente aos seus problemas enquanto sublinham a incapacidade do sistem democrático em, historicamente, criar condições de vida semelhantes às das gerações anteriores, nomeadamente a do pós-Segunda Guerra Mundial.
Identificámos no âmbito do projeto SmartVote algumas tendências que explicam as diferenças geracionais sentidas hoje na Península Ibérca, e que estão na origem do propósito do projeto de trabalhar diretamente com os mais jovens. Os cidadãos espanhóis e portugueses apresentam níveis semelhantes de preocupação com a desinformação online (7 em cada 10 dizem-se preocupados) mas essa preocupação cai entre os mais jovens. Os mais jovens revelam-se também menos interessados por notícias, evitam notícias em proporção considerável e, no caso Espanhol, confiam menos em notícias do que a generalidade dos cidadãos, independentemente da idade (Novoa-Jaso et al., 2024).
Ainda que em Portugal a maioria dos cidadãos afirme confiar em notícias -53% (Cardoso et al., 2024), registam-se em ambos os países aumentos da saturação noticiosa, exposição seletiva a notícias e do evitar ativo de notícias, em particular entre os mais jovens (Badillo-Matos et al., 2023). Simultaneamente, tem-se observado na Península Ibérica um aumento e complexificação dos fenómenos de desinformação, que, em permanente evolução, se vão tornando mais complexos em termos tecnológicos e mais abrangentes nos termos das suas abordagens temáticas, encaixando-se de forma conveniente no debate público pelo apelo a tópicos que são de maior preocupação para os cidadãos e eleitores como a política, conflitos armados ou alterações climáticas (Magallon-Rosa, 2024, Cardoso et al., 2024).
Estas tendências revelam-se particularmente preocupantes no contexto da rápida ascensão e institucionalização da IA no quotidiano mediático dos públicos online. O impacto das estruturas e plataformas algorítmicas no consumo de notícias e na consequente perceção da sociedade e da vida pública tem sido largamente explorado ao longo dos últimos anos (Newman et al., 2023) e, mais recentemente, a academia começou a concentrar a sua atenção na IA e nos seus efeitos nas dietas de media, revelando uma tendência interessante: à semelhança do observado noutras geografias, os públicos ibéricos estão curiosos e disponíveis para abraçar esta nova tecnologia mas revelam níveis de confiança substancialmente mais baixos nas instâncias em que esta opera de forma independente, sem supervisão humana (Newman et al., 2025, Novoa-Jaso et al., 2024, Cardoso et al., 2024).
Os efeitos dos fenómenos e evoluções enunciados acima tornam-se particularmente interessantes e complexos no contexto do surgimento de uma nova tecnologia, em particular de uma com um potencial de disrupção tão evidente como o da IA. Multiplicam-se os estudos e os esforços para prever e delimitar os cenários de futuro mais prováveis sobre os efeitos da IA ao nível económico, cultural, tecnológico e político, intensificando-se, também, a discussão sobre os seus impactos na democracia e na vida pública.
O projeto SmartVote surge precisamente neste contexto e nesta encruzilhada de um debate que inclui aspetos culturais, tecnológicos, políticos e democráticos sobre a forma como todos estes fenómenos se conjugam. Assumindo que a complexidade destes aspetos precede o surgimento da IA na forma dos Large Language Models (LLM’s), torna-se ainda mais necessária com a sua vulgarização e uso alargado. Da experiência da última década e da proliferação dos mecanismos algorítmicos de seleção de conteúdos motivaram-se intensos debates sobre as questões da literacia algorítmica e do uso informado de ecossistemas de informação.
Entre esses debates e no âmbito da esfera pública conectada, destacaram-se os que se dedicaram ao aumento da exposição seletiva a conteúdos e a informação, e à permeabilidade dos ambientes algorítmicos a operações de desinformação e manipulação da opinião pública. Ainda que a discussão sobre os efeitos dos algoritmos tenha começado muito antes disso, é possível afirmar que atingiu o mainstream político entre 2015 e 2016, com o referendo do Brexit no Reino Unido e as Eleições Presidenciais Americanas que resultaram na eleição de Donald Trump para o seu primeiro mandato (Badillo-Matos et al., 2023).
Ainda que seja claro que, do ponto de vista meramente tecnológico, se defenda uma visão da IA como algo sem precedentes, do ponto de vista político-comunicacional a discussão sobre os seus impactos enquadra-se perfeitamente no âmbito do debate anterior sobre algoritmos, o efeito dos algoritmos e a necessidade imperiosa de promover estruturas de formação em literacia para os media de forma a incluir estas novas formas tecnológicas.
No caso da IA, e face às formas algorítmicas que a precedem, acentuam-se ainda mais os aspetos da hiperpersonalização dos conteúdos produzidos à imagem do que os LLM’s assumem como expetativas dos utilizadores sob o efeito de uma potencialmente falsa neutralidade. Tal como todas as estruturas comunicacionais ao longo da história, os LLM’s de IA não são neutros, transportando consigo mensagens intrínsecas das estruturas sociais e económicas em que surgiram e, em muitos casos, refletindo os parâmetros ideológicos daqueles que os criaram (Buyl et al., 2024).
Com efeito, e observando a história recente do que tem sido o debate sobre a literacia para os media e a sua crescente importância na sociedade, os aspetos de formação do projeto SmartVote relacionados com estes tópicos acompanham a ideia geralmente aceite de que o uso crítico e informado de uma tecnologia só é possível se cada utilizador tiver consciência dos sistemas de poder e do simbolismo expressos na tecnologia (Potter, 2004, Livingstone, 2003). Simultaneamente, são inegáveis as mais-valias da IA do ponto de vista da revisão e tratamento sistemático da informação, que potencia a geração de conteúdo relevante e fidedigno, assim como a verificação de informação de outras fontes, dimensão que procuramos também explorar no âmbito deste projeto com a construção de ferramentas de IA que possibilitem a identificação e o alerta do utilizador para fenómenos e conteúdos de desinformação.
Tal como demonstrado de forma sistemática no já referido documento inaugural do projeto (Paisana et al., 2025), este trabalho é particularmente importante junto dos cidadãos mais jovens da península ibérica. Da mesma forma que a mobilização dos jovens ajuda a explicar em parte a ascensão dos movimentos e partidos populistas, também há dados que apontam para uma maior propensão para o ativismo em torno de outras causas tais como igualdade de género, direitos humanos ou a saúde mental. O trabalho com os jovens na crucial faixa etária dos 18-25 anos é fundamental para fomentar boas práticas de informação política e participação eleitoral porque, independentemente da orientação política, o acesso a informação factual e consciente é uma parte fundamental da coabitação em democracia e em estados de direito democrático.
Nesta compilação de artigos, escritos por especialistas ibéricos nos tópicos debatidos acima, visamos explorar todas as dimensões das problemáticas adereçadas pelo projeto SmartVote. Assim, seguem-se capítulos dedicados ao papel do jornalismo, literacia para os media, novos atores tecnológicos e ao papel da tecnologia, em geral, neste debate.
Agradecimentos
O autor agradece a Raul Magallón-Rosa os seus comentários e sugestões que contribuíram largamente para a qualidade deste capítulo
Referências
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Coppedge, M., Gerring, J., Knutsen, C.H., Lindberg, S.I., Teorell, J., Altman, D., Angiolillo, F., Bernhard, M., Cornell, A., Fish, M.S., Fox, L., Gastaldi, L., Gjerløw, H., Glynn, A., God, A.G., Grahn, S., Hicken, A., Kinzelbach, K., Krusell, J., Marquardt, K.L., McMann, K, Mechkova, V., Medzihorsky, J., Natsika, N., Neundorf, A., Paxton, P., Pemstein, D., von Römer, J., Seim, B., Sigman, R., Skaaning, S.E., Staton, J., SundströmA., Tannenberg, M., Tzelgov, E., Wang, Y., Wiebrecht, F., Wig, T., Wilson, S., & Ziblatt, D. (2025). «V-Dem Portugal-2025 Dataset v15» Varieties of Democracy (V-Dem) Project. https://doi.org/10.23696/vdemds25
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14/05/2025