26/05/2026
A literacia mediática tem de começar no Pré-escolar e deve envolver jornalistas
Vitor Tomé
Universidade Autónoma de Lisboa / Iscte – Instituto Universitário de Lisboa
Tomé, V. (2026). A literacia mediática tem de começar no Pré-escolar e deve envolver jornalistas. SmartVote. https://doi.org/10.5281/zenodo.20394726
Em termos conceptuais, este artigo assenta na Literacia Mediática, na sua visão mais ampla, como o conceito-chapéu de todas as outras literacias, desde a literacia das notícias à literacia da IA, tal como o reconhece a UNESCO. Associamos-lhe aqui a Educação para a Cidadania Digital, conceito-chapéu do Conselho da Europa que está ancorado nos três pilares da instituição: Direitos Humanos, Democracia e Estado de Direito.
Literacia Mediática é o “conjunto de competências que permite a um indivíduo aceder aos media e seus conteúdos, compreender e avaliar de modo crítico esses conteúdos (veiculados em diferentes linguagens) e os contextos em que esses media atuam, além de criar, de forma reflexiva, mensagens em diversos contextos, de disseminar essas mensagens através de diferentes canais, de forma a intervir socialmente e provocar mudança” (Tomé, 2025, no prelo).
Educação para a Cidadania Digital consiste no envolvimento positivo e competente com as tecnologias (criar, trabalhar, partilhar, socializar, investigar, jogar, comunicar e aprender), a participação ativa e responsável (valores, capacidades, atitudes, conhecimento e compreensão crítica) em comunidades (local, nacional, global), a todos os níveis (político, económico, social, cultural e intercultural) e um processo de aprendizagem ao longo da vida (em contexto formal e informal); defendendo os Direitos Humanos e a dignidade humana (Frau-Meigs, O’Neill, Soriani e Tomé, 2017).
A Literacia Mediática é condição chave para o exercício de uma cidadania participativa e responsável, que deve ser aprendida desde o berço e ao longo da vida. Em termos de educação formal, deve começar no Pré-escolar, em linha com a Educação para a Cidadania Digital, envolvendo toda a comunidade, com destaque para os papéis que os jornalistas podem assumir no processo.
Fundamentos
A educação Pré-escolar é fundamental em áreas críticas de desenvolvimento, como a leitura e a escrita, habilidades linguísticas, motoras e cognitivas, como a capacidade de resolução de problemas e a tomada de decisões. É-o também em termos de desenvolvimento social e emocional ou do pensamento crítico, pois a capacidade de avaliar informação de forma crítica, não só se manifesta, como se desenvolve numa fase inicial da infância, constituindo um pilar do raciocínio crítico.
Um estudo empírico, que envolveu 120 crianças de 3 a 7 anos, concluiu que, mesmo em idade pré-escolar, as crianças avaliam como mais aceitáveis as afirmações factuais que se baseiam em evidências verificadas em detrimento daquelas que não foram suficientemente verificadas. Revelou ainda que o nível desta capacidade está correlacionado com a compreensão explícita que as crianças demonstram sobre os critérios subjacentes à aceitação ou rejeição de uma informação (Butler, Schmidt, Tavassolie e Gibbs 2018).
A investigação mostra ainda que a participação precoce em atividades de Literacia Mediática pode aumentar a resiliência contra a desinformação e as mensagens extremistas, fomentando desse modo o apoio a princípios democráticos (Lauricella, Herdzina e Robb, 2020).
A literacia mediática na educação pré-escolar ajuda a preparar as crianças para compreenderem e interagirem com os media e as suas mensagens (Rek, 2019; Vrabec, Polievková& Moravčíková, 2013), analisando, questionando e refletindo sobre esses conteúdos, o que informa a sua participação social (Novitskyi, Taranenko, Kalenych, Baranova e Poberezhets, 2025; Suárez-Perdomo, Garcés-Delgado e Arvelo-Rosales, 2025).
Vai além da dimensão técnica, de acesso aos média, da abordagem de riscos e de oportunidades, pois assenta no pensamento crítico, no diálogo, na reflexão e na autorreflexão permanentes, seja acerca das linguagens, das representações, dos atores envolvidos na produção dos conteúdos e nas formas de chegar e cativar audiências (Buckingham, 2019). Deve estar associada à filosofia, promovendo a reflexão acerca do conhecimento e da informação, a atitude de questionar e o raciocínio ético (De Schrijver e Cornelissen, 2023; D’Olimpio, 2017).
Combinada com o pensamento crítico e filosófico, a Literacia Mediática prepara as crianças para uma cidadania ativa, participativa e responsável (Shykyrynska, Liapunova, Melnykova, Mnyshenko & Petryshyna, 2025), sobretudo em contextos que privilegiam a comunidade, o sentido de pertença e a inclusão, ou seja, que são favoráveis à aprendizagem da cidadania e dos valores democráticos (DeZutter, S. L. (2023; Zachrisen, 2016).
Desafios
Desenvolver a Literacia Mediática no Pré-escolar implica responder a um conjunto de desafios. Desde logo, a investigação na área esteve historicamente mais focada nas crianças com nove ou mais anos (Holloway, Green e Livingstone, 2013) e só nos últimos 10 a situação se alterou, com projetos como a ação COST The digital literacy and multimodal practices of young children (DigiLitEY), que juntou, entre 2015 e 2019, investigadores de 38 países e de várias áreas científicas.
Da ação destacamos duas necessidades identificadas: i) a de os educadores integrarem o digital nas atividades pedagógicas de forma coerente com o contexto e de acordo com princípios definidos pela escola; ii) a de os decisores políticos apostarem na formação inicial e contínua para educadores, bem como em recursos tecnológicos adequados e no financiamento de mais investigação (DigilitEY, 2018).
Sucede que a integração da Literacia dos Media na formação inicial de docentes é incipiente em muitos países europeus (Mesquita, Pranaityte-Wergin e Castellini da Silva, 2023) e tem avançado apenas de forma parcelar na formação contínua de docentes, a qual tem estado mais centrada nas competências funcionais que nas culturais, estas últimas associadas ao pensamento crítico (Buckingham, 2022).
Ainda que a Literacia Mediática exista em alguns currículos, a sua implementação é fragmentada e não segue um processo universal, pelo que é necessário investigar e estruturar formas de incluir a literacia mediática no currículo do pré-escolar, de forma a contribuir para promover os valores democráticos de forma consistente (Rek, 2019).
Outro desafio é a formação dos jornalistas, pois se no final de 2020 aceitaram o repto do ‘Plano de Ação para a Democracia Europeia’, que referia a necessidade de “apoiar o envolvimento de jornalistas em atividades de Literacia Mediática, em particular através de iniciativas em escolas”, importa analisar o trabalho por eles desenvolvido.
Numa análise de sete projetos de Literacia Mediática que envolvem jornalistas, em curso em quatro continentes, Tomé (2025) concluiu que são públicos-alvo são professores, alunos, jornalistas e outros membros da comunidade, mas nenhum tem como alvo claro professores ou alunos da educação Pré-escolar. O mesmo sucede com os recursos disponibilizados, sejam eles de cariz metodológico ou materiais a usar em salas de formação.
Os jornalistas são sobretudo formadores de alunos, de professores ou de outros jornalistas, mas não é clara a formação que esses jornalistas-formadores receberam para poderem desempenhar esse papel, a não ser num projeto, no qual os jornalistas que o integram foram previamente formados em literacia mediática, tendo sido também certificados pelo Ministério da Educação para poderem formar professores.
Conclusões e recomendações
A Literacia Mediática, em complementaridade com a Educação para a Cidadania Digital, tem de começar no Pré-escolar e deve envolver jornalistas, desde logo em linha com os objetivos do projeto SmartVote, que consistem na participação democrática, na cocriação de ferramentas para aumentar a resiliência à desinformação, envolvendo jornalistas e estudantes de jornalismo nessa tarefa.
É até ao final da educação Pré-escolar que as crianças desenvolvem áreas críticas, entre elas a do pensamento crítico, que lhes permite, entre outras, avaliar e identificar informação credível e não credível, com base em critérios explicitamente aprendidos. Tal contribui para a aumentar a resiliência contra a desinformação e mensagens extremistas e ou polarizadas.
A tarefa não é fácil e deve ser desenvolvida desde o berço e ao longo da vida, o que exige mais investigação com crianças até aos oito anos, a formação inicial e contínua de educadores, adequada ao contexto e usando métodos e recursos pedagógicos adequados, pois essa formação é ainda incipiente em muitos países europeus e nem sempre focada na dimensão crítica.
Também os currículos devem ser ajustados em função da realidade, para que no terreno aconteçam práticas pedagógicas eficazes, assentes em princípios pedagógicos significativos. E é neste contexto que os jornalistas devem estar preparados para colaborar com os professores e educadores, indo além da participação esporádica em salas de aula, onde abordam práticas jornalísticas e técnicas de verificação.
Recomendações
Face ao exposto, consideramos que os jornalistas devem ter um papel central nas estratégias de Literacia Mediática, em todos os níveis de ensino, sem excluir outros contextos não-formais ou informais de aprendizagem. O nosso foco está aqui na educação Pré-escolar, na qual os jornalistas, com a devida formação na área, podem colaborar a sete níveis:
- Criando conteúdos informativos para crianças, de forma equilibrada entre métodos profissionais, a diversidade das crianças e do seu contexto, para que elas se interessem pelos conteúdos de forma significativa (Haavisto e Kyllönen, 2025).
- Colaborando na produção (ou adaptação) de recursos para crianças, que possam ser disponibilizados online, e usados por professores e educadores, seja a ferramenta que o SmartVote está a desenvolver, ou outros, como os da RTP Ensina, que tem informação para todos os ciclos de ensino, na área dos média, mas ainda não para o Pré-escolar.
- Explicando práticas jornalísticas e normas profissionais (imparcialidade, fontes, verificação de informação…), desenvolvendo competências na área do pensamento crítico, mesmo com crianças muito pequenas (Foà, Tomé, Margato, Paisana, Crespo e Cardoso, 2023)
- Divulgando recursos e orientações para pais, ou participando em sessões com esses pais e cuidadores, discutindo o funcionamento dos media e formas de os pais abordarem usos e práticas mediáticas, riscos e oportunidades com as crianças (Permpoonputtana, Doungsri, Kunwittaya, Khamnong e Kleebpung, 2024).
- Formando professores e educadores, devendo os jornalistas ter formação prévia e certificação como formadores de professores, para que a formação possa ser acreditada e contribuir para a progressão na carreira dos docentes (Tomé, Branco, Nery e Crespo, 2023)
- Colaborando na criação, implementação e avaliação de projetos de intervenção comunitária em literacia mediática, os quais podem partir do jardim-de-infância e da escola de 1º Ciclo, e envolverem a produção de media escolares, como jornais escolares, em papel e online, um canal de YouTube ou outros (Tomé e Abreu, 2023)
- Participando ativamente nas políticas nacionais de literacia dos media e cidadania, como o plano nacional de literacia mediática (ex: Portugal), na estratégia nacional de combate à desinformação (ex: Irlanda) ou em eventos internacionais de grande relevância como a Semana da Literacia Mediática (global).
Referências
Buckingham, D. (2019). Media Education Manifesto. Cambridge, UK: Polity Press.
Buckingham, D. (2022). Who needs data literacy? https://davidbuckingham.net/2022/04/20/who-needs-data-literacy/
Butler, L. P., Schmidt, M. F. H., Tavassolie, N. S., & Gibbs, H. M. (2018). Children’s evaluation of verified and unverified claims. Journal of Experimental Child Psychology, 176, 73–83. https://doi.org/10.1016/j.jecp.2018.07.007
Comissão Europeia (2023). Documents on Defence of Democracy. https://commission.europa.eu/publications/documents-defence-democracy_en?prefLang=pt
De Schrijver, J., & Cornelissen, E. (2023). Can Truth Change? Philosophical Dialogue to Foster Pupils’ Reflection About (Mis)information. In Education in the Age of Misinformation: Philosophical and Pedagogical Explorations (pp. 143–161). Springer International Publishing. https://doi.org/10.1007/978-3-031-25871-8_8
DeZutter, S. L. (2023). Children’s Classroom Citizenship Enactment: Challenges and Opportunities. Em International Perspectives on Educating for Democracy in Early Childhood: Recognizing Young Children as Citizens (pp. 329-338). Taylor and Francis. https://doi.org/10.4324/9781003229568-26
DigilitEY. (2018, August). Digital Literacy and Young Children: Towards Better Understandings of the Benefits and Challenges of Digital Technologies in Homes and Early Years Settings. Policy brief os the COST Action IS1410/ EECERA Digital Childhoods SIG. https://drive.google.com/file/d/17MhHL1YnAWryLLUumRL-qw_amJ6kpaCH/view?usp=sharing
D’Olimpio, L. (2017). Media and moral education: A philosophy of critical engagement. Taylor and Francis. https://doi.org/10.4324/9781315265452
Foà, C., Tomé, V., Margato, D., Paisana, M., Crespo, M., & Cardoso, G. (2023). Roles of journalists in media literacy initiatives: trainees and trainers. Continuity, collaboration, and sustainability of media literacy trainings to mitigate disinformation in Portugal. Profesional De La información Information Professional, 32(6). https://doi.org/10.3145/epi.2023.nov.21
Frau-Meigs, D., O’Neill, B., Soriani, A. e Tomé, V. (2017). Digital Citizenship Education: Overview and new perspectives. Strasbourg: Council of Europe. Accessed from: https://www.researchgate.net/publication/337812656_Digital_Citizenship_Education_overview_and_new_perspectives
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Haavisto, C., & Kyllönen, R. (2025). Who is the News-Consuming Child? How Producers of Children’s Journalism Construct their Audience. Journalism Practice. https://doi.org/10.1080/17512786.2025.2551980
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Novitskyi, V., Taranenko, H., Kalenych, V., Baranova, O., & Poberezhets, H. (2025). Fostering Media and Information Literacy and Critical Thinking Skills in the Digital Age. International Journal on Culture, History, and Religion, 7(SI1), 193-207. https://doi.org/10.63931/ijchr.v7iSI1.161
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Tomé, V. & de Abreu, B. (2023). Empowering Communities with Media Literacy: The Critical Role of Young Children. Peter Lang: New York.
Tomé, V., Branco, S., Nery, I. & Crespo, M. (2023). Portuguese Journalists training teachers in the new media education landscape during COVID-19. In Friesem, Y., Raman, U., Kanižaj, I., & Choi, G.Y. (Eds). The Routledge handbook on media education futures post pandemic (pp. 216.225). New York: Routledge.
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