Captar a atenção dos jovens para as notícias nos ambientes digitais onde encontram dinamismo e socialização 

29/07/2026

Captar a atenção dos jovens para as notícias nos ambientes digitais onde encontram dinamismo e socialização 

Desinteresse por notícias da parte dos jovens alerta para a necessidade de estratégias de aproximação adotando formatos curtos, mas levanta questões quanto ao aprofundamento da informação  

Por Dina Margato

O artigo “Extremamente alto e incrivelmente perto, os microdramas são as séries do momento”, publicado a 9 de março de 2026 no jornal Público, realçava a estratégia da estação pública portuguesa, RTP, em micro séries para disponibilização em telemóvel. O plano consiste em explorar, em termos de formato, a imagem em posição vertical, e, em termos de conteúdos, narrativas simples, apelativas, curtas e facilmente assimiláveis, adequadas a uma geração que prefere as redes sociais e os dispositivos móveis. A ficção vai ao encontro dos jovens de outra maneira, ajustou-se a outro outfit, meteu-se no seu bolso, através do aparelho telemóvel, de que são inseparáveis. 

O tema de converter ficção num modelo muito curto, lido num flash, de consumo rápido, exposto numa imagem ao alto suscita, porém, controvérsia. O resumo dos comentários dos leitores à notícia publicada no site do Público demonstra que a dita inovação é considerada descabida, sendo sugerido que está a alimentar uma tendência de consumo preocupante. De uma forma geral, os leitores rejeitam este tipo de formato aplicado à ficção televisiva, criado para se tornar uma oferta via telemóvel, em linha com o que é um conteúdo gerado para as redes sociais online, como é o caso do Instagram. 

Ora, a maioria dos jovens revela que não tem interesse por notícias, mais propriamente 61% dos portugueses entre os 18 e os 24 anos (Cardoso et al., 2025). E este afastamento é particularmente notável em relação a temas considerados tradicionalmente relevantes (Brites et al., 2017). Verifica-se ainda um comportamento de evitamento de notícias, adotado por 34% dos jovens, motivado pelos conteúdos sobre guerras e conflitos (30%), que têm impacto negativo no seu humor (29%) (Gustavo et al., 2025). Os jovens descrevem as notícias frequentemente como tristes, assustadoras e até aborrecidas (Castro et al., 2024).

Na contemporaneidade, a relação dos jovens com os conteúdos mediáticos tem sido profundamente transformada pela expansão das redes sociais e é neste contexto que também deve entender-se o contacto com notícias. Os jovens estão também a revelar na atualidade um forte interesse por formatos concisos e visuais, copiando os modelos que caracterizam as redes sociais (Margato et al., 2025).

Em março de 2026, um estudo internacional divulgado pela Reuters Institute, que envolveu nove países (Robertson et al., 2026) indica que 39% utilizam as redes sociais como primeira fonte de notícia. Em 2015, eram 21%, para o mesmo grupo entre os 18 e os 24 anos. Outro dos resultados assinala que os jovens se informam em modo casual e que preferem entre as redes sociais, o Instagram (30%), o Youtube (23%) e o TikTok (22%). Acrescente-se que os jovens que usam redes sociais para se informarem prestam mais atenção a influencers do que a jornalistas tradicionais.

Estudos anteriores apontavam já nesse sentido. O contacto dos jovens com notícias está a realizar-se através do processo “news-finds-me” (Gil de Zuñiga et al. 2017), de forma acidental e incidental entre momentos de lazer (Boczkowski, Mitchelstein & Matassi, 2018 e Fletcher & Nielsen, 2018) e uma parte prefere encontrar as notícias em modelo “scroll news” (Margato et al., 2025). Tal configuração reforça a ideia de que o consumo de informação se tornou cada vez mais fragmentado e integrado em rotinas de multitarefa digital (Boczkowski e Mitchelstein & Matassi, 2018).

Uma outra investigação recente explica porque é que os jovens preferem as notícias em ambiente de redes sociais. Precisamente, conclui-se, devido às características estruturais que as constituem (Margato et al. 2025). Reconhecem-lhes um dinamismo que não encontram nos sites de notícias tradicionais, um ânimo e vivacidade que relacionam com o decalque das características dos outros conteúdos ali presentes. Sentem-se atraídos pela energia e pulsão humana que dizem detetar no que encontram no alinhamento das redes sociais. Simultaneamente, agrada-lhes o potencial de interatividade e a possibilidade de acompanhar a atividade de outros (Margato et al.,5 2025). No seu conjunto, permite-lhes contactar com aspetos emotivos e relacionais que estão vedados nos sites de notícias, nos quais, a caixa de comentários, inclusivamente, costuma estar reservada a assinantes.

Esta constatação confirma que as redes sociais estão a ser usadas pelos jovens como meios de comunicação de socialização, entretenimento e como meio para se manterem informados (Aichner et al., 2021 e Feio & Oliveira, 2025). Estão a desempenhar um papel fundamental nas suas vidas, por conjugarem um lado social, um lado romântico, uma parte familiar e outra profissional (Aichner et al., 2021) ao mesmo tempo que se transformam elas próprias em espaços próprios de consumo de média (Russmann & Hess, 2020). Refira-se, em complemento, que a economia da atenção se transformou num recurso escasso tendo em conta o ecossistema mediático contemporâneo, obrigando produtores de conteúdos a desenvolver formatos mais curtos e visualmente apelativos (Davenport & Beck, 2001 e Newman et al., 2023).

A adaptação às práticas mediáticas dos jovens exige uma compreensão detalhada das rotinas digitais que caracterizam o seu quotidiano. E além das redes sociais, o smartphone ocupa um lugar central nesse contexto, funcionando como interface principal de acesso à informação, comunicação e entretenimento. Como referem as pesquisas sobre comunicação móvel, a portabilidade e a conectividade permanente destes dispositivos contribuem para integrar o consumo mediático nas atividades diárias dos utilizadores, desde deslocações em transportes públicos até momentos de lazer ou pausas no estudo (Westlund, 2013).

Os jovens estão a escolher os smartphones e as redes sociais para se manterem informados sobre a atualidade e compreender este fenómeno é relevante, uma vez que o conteúdo noticioso ajuda a moldar a opinião pública (Klopfenstein Frei et al., 2022) e o consumo de notícias em contexto digital pode influenciar a participação política (Moeller et al., 2018).

Neste cenário, a produção de conteúdos, sejam de ficção ou informativos, terá a ganhar se a orientação for gerar formatos compatíveis com a lógica de consumo móvel. A estratégia centralizada em vídeos verticais, narrativas curtas e interfaces adaptadas ao scroll contínuo reflete precisamente essa tentativa de alinhar a produção mediática com os novos padrões de comportamento.

Daí a relevância em reconhecer que as redes sociais desempenham um papel significativo na aproximação dos jovens às notícias. Para muitos utilizadores, estas plataformas funcionam como porta de entrada para o campo informativo. A presença de jornalistas, órgãos de comunicação social e criadores de conteúdos especializados nas redes sociais está a contribuir para diversificar as formas de apresentação da informação e para explorar novos formatos narrativos adaptados às lógicas digitais. 

A relação entre os jovens e os média contemporâneos caracteriza-se por uma interseção entre a utilização de redes sociais online e o recurso a dispositivos móveis. A afirmação de que muitos jovens contactam com notícias através das redes sociais evidencia a centralidade destas plataformas no ecossistema informativo atual. 

Neste contexto, compreender os jovens e as notícias implica reconhecer que o acesso à informação e ao entretenimento ocorre cada vez mais em ambientes híbridos, nos quais as fronteiras entre diferentes tipos de conteúdos são difusas, sem perder de vista que as redes sociais funcionam simultaneamente como espaço de sociabilidade. 

Para o jornalismo, fica a oportunidade de inovar e desenvolver estratégias capazes de produzir informação de qualidade, atrativa, que se destaque entre os inúmeros conteúdos polifacetados, preservando, ao mesmo tempo, a informação rigorosa. As redes sociais são mais eficazes na captação de jovens para as notícias devido à sua dimensão dialógica, emotiva, interativa e dinâmica, que os sites tradicionais não conseguem replicar.

Esta maior eficácia das redes sociais levanta, no entanto, questões relevantes. Desde logo, pela criação de uma necessidade de saber distinguir conteúdos de informação, entretenimento e até mesmo publicidade (Swart & Broersma, 2022). No campo do jornalismo, impõem-se discussões sobre a qualidade da informação hiper resumida, uma vez que se pode privilegiar conteúdos superficiais ou emocionalmente apelativos em detrimento de informação de maior profundidade (Margato, et al. 2025). Acrescente-se ainda que esses conteúdos têm ainda de lidar com as pressões algorítmicas, que podem condicionar o que é mostrado efetivamente aos jovens. Numa lógica comercial, esta intervenção enfrenta também a dificuldade de encontrar modelos de receita publicitária que compensem o investimento, uma vez que as redes sociais pertencem a empresas gigantes que lucram com a sua utilização.

Apesar das adversidades contextuais a ter em conta, o recurso a microformatos em vídeos verticais e narrativas curtas reflete essa tentativa de alinhar a produção mediática com os hábitos dos públicos cada vez mais digitais e em constante mobilidade. Tal como na ficção, a captação dos jovens para as notícias depende também desta adaptação do jornalismo a novos formatos e modelos, à lógica digital e emocional familiar às novas gerações. 

Referências

Aichner, T., Grundelder, M., Mauer, O., & Jegeni, D. (2021). Twenty-Five Years of Social Media: A review of Social Media Applications and Definitions from 1994 to 2019. Cyberpsychology, Behaviour, and Social Networking, 24, 215–222. https://doi.org/10.1089/cyber.2020.0134

Boczkowski, P., Mitchelstein, E., & Matassi, M. (2018). News comes across when I’m in a moment of leisure”: Understanding the practices of incidental news consumption on social media. New Media & Society, 20(10), 3523–3539. https://doi.org/10.1177/1461444817750396

Robertson, C. T., Arguedas, A. R., Mukherjee, M., & Fletcher, R. (2023). Understanding young news audiences at a time of rapid change. Reuters Institute for the Study of Journalism. https://doi.org/10.60625/risj-r08r-mt26

Cardoso, G. (2023). A Comunicação da comunicação, as pessoas são a mensagem. Mundos Sociais.

Cardoso, G., Paisana, G., & Pinto-Martinho. (2025). Digital News Report Portugal 2025, OberCom Observatório da Comunicação. https://doi.org/10.5281/zenodo.1559907

Castro, T. S., Brites, M. J., & Maneta, M. S. (2024). Milestone 5: Data analysis systematization. YouNDigital – Youth, News and Digital Citizenship. [Universidade Lusófona – CICANT.]. https://doi.org/10.54499/PTDC/COM-OUT/0243/2021

Couldry, N., & Hepp, A. (2017). The Mediated Construction of Reality. Polity Press

Davenport, T., & Beck, J. (2001). The Attention Economy. Harvard Business School Press

Feio, C., & Oliveira, L. (2025). Scrolling Through the Feed—How do Young People in Portugal Consume News on Social Media? Observatório (OBS*), 19 (5). https://doi.org/10.15847/obsOBS19520252670

Fletcher, R., & Nielsen, R. K. (2018). Are people incidentally exposed to news on social media? A comparative analysis. New Media & Society, 20(7), 2450–2468. https://doi.org/10.1177/1461444817724170

Gil de Zuñiga, H., Weeks, B., & Ardévol-Abreu, A. (2017). Effects of the news-Finds-Me Perception in Communication Social Media Use Implications for News Seeking and Learning About Politics. Journal of Computer-Mediated Communication, 22 (3). https://doi.org/10.1111/jcc4.12185

Jenkins, H. (2006). Convergence Culture: Where Old and New Media Collide. New York University Press

Newman, N. et al. (2023). Digital News Report. Reuters Institute for the Study of Journalism.

Klopfenstein Frei, N., Wyss, V., Gnach, A., & Weber, W. (2022). “It’s a matter of age”: Four dimensions of youths’ news consumption. Journalism, 25(1), 100–121. https://doi.org/10.1177/14648849221123385 

Moeller, J., Kühene, R, & de Vreese, C. H. (2018) Mobilizing youth in the 21st century: How digital media use fosters civic duty, information efficacy, and political participation. Journal of Broadcasting & Electronic Media, 62(3), 445–460. https://doi.org/10.1080/08838151.2018.1451866

Swart, J., & Broersma, M. (2022). The Trust Gap: Young People’s Tactics for Assessing the Reliability of Political News. International Journal of Press/Politics, 27(2), 396–416.
https://doi.org/10.1177/1940161221100669

Westlund, O. (2013). Mobile news: A review and model of journalism in an age of mobile media. Digital Journalism 1(1), 6-26. https://doi.org/10.1080/21670811.2012.740273

Perfil profissional

Aldina Maria da Silva Margato, que assina com o nome da jornalista Dina Margato, é investigadora na área dos media e tem vindo a estudar a reinvenção do jornalismo. Encontra-se atualmente a concluir o doutoramento em Ciências da Comunicação, é docente convidada da licenciatura em Jornalismo no Instituto Superior Miguel Torga e integra a equipa do projeto Iberian Digital Media Observatory. Dina Margato trabalhou como jornalista no Jornal de Notícias, onde desempenhou várias funções, e colaborou também com o jornal Expresso.

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